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terça-feira, 17 de maio de 2011

Poderosas Mulheres: Levada da Breca

Levada da Breca é um exemplo destacado das comédias amalucadas (screwball comedies) no cinema norte-americano dos anos 30: nada parece funcionar nos eixos e a personagem de Katharine Hepburn, a rica herdeira Susan Vance, faz de tudo para não deixar o pacato paleontólogo Dr. David Huxley (o ator Cary Grant) em paz e conquistá-lo amorosamente.

A desvairada energia de Susan e a excessiva quietude de David sugerem uma complementaridade libidinosa muito especial: a potência vem dela; o homem precisa ser muito provocado (excitado) para atender às demandas da fêmea, que se expressam como excesso de atividade e desejo atropelador; a paz é mais de cemitério que outra coisa, não merece ser mantida. E o macho parece gostar da situação, que o retira do imobilismo, apesar das confusões: as demandas eróticas são dele também, talvez menos conscientes.

Trata-se de um erotismo difuso muito especial, como se o sexo estivesse longe dali, ali mesmo, o tempo todo. Mas a própria energia alucinante da ação e algumas sugestões simbólicas dispersas no filme – o osso do brontossauro (falo adormecido), que aparece, some e retorna, e a fuga da onça (a feroz maciez da libido, tema indireto de uma canção muito posterior de Roberto e Erasmo Carlos: “Um leão está solto nas ruas”) - indicam que o desejo está a todo vapor e produzindo efeitos ótimos sobre seus fiéis portadores: embora tudo pareça sem pé nem cabeça (ou por isso mesmo), triunfa o gozo.
O estudioso Andrew Sarris fala, a respeito desses filmes, em “comédia sexual sem sexo”:  SARRIS, Andrew. You Ain’t Heard Nothin’ Yet: The American Talking Film, History & Memory, 1927-1949. New York: Oxford University Press, 1998. Pode não haver sexo explícito mas as dispersas alusões à libido são incontáveis...
A sede da instituição onde David trabalha (Stuyvesant Museum of Natural History) tem aspecto majestoso, mansão cercada por árvores e amplo jardim. A primeira aparição do personagem é na postura da escultura "O pensador", de Rodin, segurando um osso de grande fóssil montado por ele de forma incompleta, sem saber onde encaixar aquela peça. O esqueleto do brontossauro, portanto, parece com um quebra-cabeça mas a solução do enigma está prestes a surgir pois David recebe telegrama avisando que a peça ausente (clavícula) fora encontrada numa pesquisa de campo e lhe seria entregue no dia seguinte.
Essa notícia é saudada com alegria por ele, que tenta beijar e abraçar sua assistente e noiva, Alice Swallow (a atriz Virginia Walker), sendo rejeitado. A moça tem cabelos presos e usa óculos, sugere uma relação com o homem centrada no trabalho e mesmo assexuada. Ela afirma, propondo que não tenham lua de mel: "Nada pode interferir em seu trabalho". E aponta para o fóssil montado, comentando: "Esse será o nosso garoto". O filme parte, portanto, de um desconforto amoroso - um noivado sem sexo, um projeto feminino de casamento também sem sexo -, sustentado, em função do trabalho, na castração do paleontólogo. O esqueleto do brontossauro se assemelha a uma metáfora da situação que o solitário David vivencia em seu frio noivado: sem vida, incompleto.
Existe a possibilidade de uma grande doação para o museu ser feita por uma milionária (senhora Elizabeth Random, interpretada por May Robson), intermediada por seu advogado (Alexander Peabody, a cargo do ator George Irving). David vai jogar golfe e depois jantar com esse homem, visando a garantir a doação. Alice, muito controladora, aconselha o noivo a deliberadamente deixar Peabody ganhar no jogo.
É no clube de golfe que David conhece Susan Vance - bonita, alegremente agressiva, gozadora, cabelos soltos -, que começa a assediá-lo. Ela toma a bola de golfe do paleontólogo, usa o carro dele e bate noutros automóveis, parte com o assustado homem em pé no estribo do carro... Mais tarde, num luxuoso restaurante onde David fora encontrar o mesmo Peabody, Susan faz com que o distraído cientista escorregue numa azeitona, amassando a cartola, e depois provoca grande descosturado em sua casaca.
Susan parece uma avalanche sobre David, repetindo argumentos que aprendeu com um psiquiatra para acusar o paleontólogo de assediá-la enquanto o assedia. Mas as roupas da moça também ficam descosturadas, mostrando largamente suas calcinhas, e David gruda nela (como autômato ou cachorro no cio) para que as outras pessoas não vejam o panorama. Se a excitação de Susan pelo homem é patente, ele parece demorar a se ligar conscientemente no que está acontecendo e expressa irritação com a insistência da moça, sem nada fazer para se desvencilhar dela.
Susan, sempre muito bem vestida, descobre que o rapaz é noivo e faz de tudo para atrasá-lo em sua tentativa de novo encontro com Peabody. A nova pretendente está muito interessada pelo paleontólogo, ri dele, não consegue levar a sério a pose de dignidade que o sério cientista ostenta – e o espectador ri com ela, torce por ela. A insistente criatura finge, pelo telefone, sofrer o ataque de uma dócil onça de estimação, ainda filhote, que seu irmão lhe enviara do Brasil, David vem salvá-la e entende o logro, retira-se mas o animal o acompanha, incentivado por Susan. Dessa forma, o rapaz é obrigado a seguir com Susan para uma casa em Connecticut, ela provoca acidente na estrada com um veículo carregado de aves e rouba carro para fugir de um guarda que queria multá-la e até prendê-la por estacionar em local proibido. A sucessão desses desastres, portanto, é um furacão sem fim que envolve David e este não tem energias (ou real vontade) para sair das situações, embora até reclame do que está acontecendo.
Chegando à casa de campo, Susan envia as roupas sujas do paleontólogo para uma lavanderia a fim de atrasá-lo ainda mais e impedir seu casamento com Alice. David é obrigado a usar roupão feminino durante um tempo, depois apela para roupas do irmão de Susan – traje de montaria fora do contexto, enfim um terno comum. E descobre que a senhora Random, potencial doadora do museu, é a tia de sua nova pretendente.
A moça fala que quer casar com ele, o cachorro de sua tia (George) rouba o osso do fóssil e o enterra em local desconhecido. Essa última situação deixa David desesperado. Para agravar o que já era grave, a onça foge, encontra com o cachorro da senhora Random mas brinca inofensivamente com o outro animal. E as correrias de David e Susan levam os dois a quedas em barranco e, depois, no leito de um riacho, aproximando-os mais e mais no próprio plano físico via escorregões e roupas encharcadas.
David sempre reclama do que sua parceira está fazendo, sem conseguir desgrudar daquela relação, sugerindo que uma ligação fora estabelecida nos horizontes de ação que se abriam para ele.
Em busca do filhote de onça que fugira, a dupla solta onça feroz que era transportada por dois homens. E confundidos com ladrões, são presos,  situação que piora cada vez mais, culminando com a prisão da própria senhora Random e de seu amigo Major Horace Applegate (o ator Charles Ruggles). Mas Susan consegue fugir e até prender a onça feroz, pensando que se tratava do filhote inofensivo. David domina a fera: a onça-desejo tem um lado dócil e outro agressivo mas pode ser domada pelo homem. A situação o transforma em herói, mesmo que ele desmaie em seguida à ousada ação. E sua noiva Alice, decepcionada com as aventuras do paleontólogo, rompe o compromisso.
No desfecho do filme, Susan procura David no museu para lhe informar que o osso desaparecido do brontossauro fora localizado e que sua tia, afinal, doara a grande importância de que o pesquisador e o Stuyvesant Museum of Natural History necessitavam. Apesar das resistências iniciais, ele confessa que os episódios malucos que viveram juntos constituíram o melhor dia de sua vida, os dois se declaram amorosamente (com a moça numa escada perigosamente oscilante), David a salva de queda e o casal acaba por desmontar o grande fóssil que tinha demorado muito para ser recomposto. Abraço, beijo, fim.
Nessa conclusão de Levada da Breca, David não é mais fóssil, tem vida e desejo com perspectiva de realização, donde a importância simbólica do brontossauro estar completo e ruir espetacularmente por obra e graça de Susan. A excelência dos dois principais intérpretes (Hepburn e Grant), associada à qualidade do elenco de apoio, à eficiência do argumento e à agilidade narrativa quase musical do diretor (Hawks) transformam essa sucessão de desastres numa obra muito bem sucedida, num espaço para manifestar uma sexualidade que, por outras vias mais “sérias”, costumava ser pouco expressa no cinema americano da época, como se o universo da “comédia amalucada” permitisse falar do interdito.
Pertencente a um gênero cinematográfico que mobilizou alguns dos melhores diretores atuantes em Hollywood nos anos 30 – Frank Capra, Ernst Lubitsch, George Cukor – Levada da Breca é um delicioso exemplo de que a alegria é uma das melhores amigas do pensamento. E de que ela é para sempre.

FICHA TÉCNICA
Levada da breca (EEUU). 1938. Direção: Howard Hawks. Roteiro: Dudley Nichols e Hagar Wilde, baseado em estória de Hagar Wilde. Fotografia: Russel Metty. Montagem: George Hively. Música: Roy Webb. Direção de Arte: Van Nest Polglase. Figurino: Howard Greer. Produção: Howard Hawks. Elenco: Katharine Hepburn (Susan Vance), Cary Grant (Dr. David Huxley), Charles Ruggles (Major Horace Applegate), Walter Catlett (Oficial), Barry Fitzgerald (Sr. Gogarty), May Robson (Elizabeth Carlton Random), Fritz Feld (Dr. Fritz Lehman), Leona Roberts (Hannah Gogarty), George Irving (Alexander Peabody) e Virginia Walker (Alice Swallow). Distribuição: RKO Radio Pictures. 102 minutos. Preto e Branco.

LEITURAS QUE RECOMENDO
BREIVOLD, Scott (Ed.). Howard Hawks – Interviews. Mississipi: The University Press of Mississipi, 2006.
HILLIER, Jim e WOLLEN, Peter. Howard Hawks – American artist. Londres: British Film Institute, 1997.
MAST, Gerald (Ed.). Brinking up baby. New Jersey: Rutgers University Press: 1989.

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