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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Outubro, de Einsentein: Os fatos do filme e o triunfo da poesia



O filme Outubro, de Serguei Eisenstein e Grigory Alexandrov, possui elementos que o identificam facilmente ao gênero “cinema histórico”: seu tema é a Revolução Russa, de 1917, grande acontecimento da História do século XX; e ele foi encomendado para comemorar os dez anos do evento, constituindo uma memória intencional sobre o tema.

Vale a pena explorar-lhe outros níveis de historicidade, principalmente a assustadora materialidade cinematográfica. Como noutros filmes de Eisenstein, o trabalho com a linguagem do cinema é meticuloso, ousado a ponto de alguns de seus resultados terem se transformado em referências canônicas para cineastas e fotógrafos posteriores. O pavão com aparência metalizada, na sala de trabalho de Alexandre Kerensky, parece ter ressurgido na coruja replicante que voa na sala de Tyrell, o empresário de Blade Runner (filme de Ridley Scott), que projetara os robôs humanóides, tornados humanos (até mais que os humanos) através da própria experiência. As foices e os fuzis, erguidos com orgulho por soldados e camponeses revolucionários, foram reapropriados por Sebastião Salgado, em suas tantas fotografias de camponeses.

Essas evidências nos lembram, de imediato, que estamos diante de um clássico, no mesmo sentido em que os movimentos de cabelos e o strip-tease da luva longa, por Rita Hayworth, transformaram o filme Gilda, de Charles Vidor, num clássico – todo comercial de shampoo e todo strip-tease são tributários de Gilda; ou o box de chuveiro, no grande Psicose, de Alfred Hitchocock. Mas também nos convidam a pensar sobre a capacidade que o cinema tem de criar seus fatos, ultrapassando em muito uma análise de discursos supostamente paralelos, e da fidelidade ou não na relação entre eles: no caso, o do filme Outubro e o do acontecimento anterior, “Revolução de 1917”, tematizado por seus diretores.

Tal paralelismo finda desprezando o filme como acontecimento. Do ponto de vista da História, o acontecimento fílmico remete ao universo da Arte e ao universo da Memória. O filme é um fazer de Memória Artística, a ser debatido preliminarmente, por historiadores, nesses níveis, mesmo que uma das legendas iniciais de Outubro reitere sua condição de “testemunha ocular e precisa do começo do nosso Estado Socialista”.

É preciso estar atento à opção por “Estado”, e não “Sociedade”, nessa declaração. Quem optou por Estado como lugar da Revolução foram Eisenstein e Alexandrov? Foi a hegemonia então vigente naquela Sociedade? A existência de diferentes versões de Outubro, em circulação internacional, sugere que Censura e órgãos semelhantes interferiram largamente nas finalizações do filme, independentemente da vontade de seus diretores. E que muito do que esses diretores quiseram mostrar escapou da censura.

Mais que testemunha ocular de qualquer coisa, Outubro é um artefato artístico de 1927, ativo agente de uma memória em construção e em disputa sobre a Revolução de 1917. E nessa construção e disputa, avulta a dimensão excepcional atribuída a Vladimir Lênin (morto em 1924), como personagem da narrativa e autor de referências em epígrafes e outros trechos textuais do filme.

Essa dimensão pode ser associada à relação de forças na política soviética daquele momento: Lênin morto, a batalha entre Josef Stálin e Leon Trótsky bastante adiantada – expulsão do último do PCURSS em novembro de 1927, seu exílio, em Alma-Ata, em 1928, e expulsão, da URSS, em 1929 -, a estrutura dos sovietes sob pleno controle de um Estado com partido único. Mas o filme não se reduz a ela.
Outubro se inicia com belíssima cena: uma mulher começa a amarrar, com cordas, gigantesca estátua do czar Alexandre III; um homem escala o mesmo monumento, usando uma escada, complementando aquele trabalho de amarrar junto com outros homens; um plano nos mostra o monumento preso por incontáveis cordas e a estátua começa a despencar, sob a ação da multidão.

É possível identificar uma crítica aos diferentes ídolos na História, nessa passagem e depois. Sim, a cena representa a derrubada do Czarismo, até de forma literal. Mas também faz parte de uma profunda crítica aos ídolos, reiterada ao longo do filme – Lênin estava virando um imenso ídolo, inclusive embalsamado (posteriormente, a canção “Rancho da goiabada”, de João Bosco e Aldir Blanc, falaria em “faraós embalsamados”), e o filme participava desse processo -, de maneira muito tensa, todavia. Se Eisenstein foi transformado, depois, em ídolo, seu cinema não visava a isso.

Outubro narra a revolução, traça periodizações desse processo, aponta acontecimentos e personagens – no último caso, um Lênin clarividente, um Trótsky vacilante e meio cabisbaixo, um Kerensky sempre ridículo... Mas revela olhos muito atentos para a presença da multidão nos acontecimentos, para sentimentos necessários à formação de um processo humano de vontade de revolução. E faz isso apresentando os machos e as fêmeas, os jovens e os velhos, figuras de diferentes regiões do Império russo.

As imagens que mostram pela primeira vez, nesse filme, os soldados na Grande Guerra enfatizam a pluralidade etária desses homens (uns enrugados, outros quase crianças), um profundo afeto entre eles, realçado por legendas como “Irmão” e “Amigo”, uma desconcertante alegria, em meio a sofrimento e cansaço. E essa confraternização se expressa em momentos dedicados a comer e beber, atos básicos de sobrevivência. Ou nos toques entre corpos e nas trocas de adereços – capacete militar por boina é um exemplo.

A contrapartida dessa Rússia de afetos é o universo do Governo Provisório, marcado por luxo, formalidade cortesã, funcionários que se curvam diante dos superiores, magníficos pisos e outros adereços arquitetônicos e decorativos ostensivamente luxuosos. E é essa Rússia do Governo Provisório, contraposta à pobreza e à fome dos homens e mulheres comuns, que aparece como responsável pela continuidade do que existia antes – guerra e carências. O Governo Provisório é um forte atestado de que a Contra-Revolução estava vencendo.

Eisenstein e Alexandrov desenvolvem um belo trabalho de montagem cinematográfica – não fosse o primeiro um dos inventores da linguagem do filme apoiada em tal procedimento -, apelando para composições de expressivos quadros visuais, formados por rostos ou diferentes objetos, como baionetas de fuzis que se espetam no chão e, depois, cálices de cristal, pratarias, relógios. Os dois diretores trabalham com imagens num ritmo musical, mesclado ao contraponto entre realidades, experiências e projetos de diferentes sujeitos: os pobres com vontade de futuro, versus os ricos, violentos e destrutivos, que espezinhavam, até literalmente, os outros.

É nesse contexto narrativo que o filme constrói uma de suas mais brilhantes imagens. A repressão do Governo Provisório a manifestações populares inclui isolar bairros de moradia desse último setor da população, suspendendo pontes movediças. Em meio a essa operação, surge a figura de um impressionante cavalo, morto, pendurado no espaço que se abre na ponte, até cair na água, bem como aparecem revolucionários agredidos, derrubados, sendo um deles (provavelmente, uma mulher) dotado de longos cabelos, que escorrem no vão da ponte, enquanto o corpo humano cai, numa rima visual com a crina daquele animal. No final dessa seqüência, aparece uma escultura com aspecto de egípcia antiga, evocando poder e autoridade. São, todavia, poder e autoridade do passado, e até mutilados. Trata-se de tema recorrente no filme – a crítica de imagens mais ou menos sagradas, expondo sua patética finitude de ídolos.

Uma função visual assumida por Outubro é exatamente essa radical crítica das imagens supostamente indiscutíveis (sagradas ou cívicas), donde a sucessão de medalhas, comendas, dragonas, esculturas de diferentes civilizações. E em meio a esses símbolos de diversos poderes, a gigantesca estátua de Alexandre III, cuja demolição marcara a abertura do filme, se recompõe, para em seguida ser sucedida pelas imagens de alguns daqueles outros ídolos sendo despedaçados, como se a História fosse uma sucessão de ídolos erguidos e derrubados, reerguidos e re-derrubados.

A revolução, nesse filme, é construída como obra coletiva, que se realiza quando as armas estão nas mãos do povo, contingente que inclui jovens e idosos, homens e mulheres. O trabalho de formar quadros visuais com diferentes objetos incluiu armas e impressos (possivelmente, panfletos, sem esquecer dos exemplares do jornal Pravda, atirados no rio pelos contra-revolucionários), salientando a amplitude grupal que qualquer revolução exige. E os militares de baixa patente assumem uma proporção de extremo significado no processo, expressa tanto visualmente, na presença de tantos soldados e marinheiros em cena, quanto no refrão reproduzido: “Proletariado, aprenda a usar seu rifle.”

O filme materializa, no plano visual, o caráter de revolução operária, camponesa e de soldados, apresentando a ação política e militar desses grupos. Em meio à narrativa épica da revolução, cabe registrar o apelo à retórica cômica, especialmente, na caracterização de Kerensky, ridiculamente contraposto à grandiosidade de Napoleão, situação que culmina na apresentação paralela daquele personagem e de um pavão com aspecto metalizado, que parece um objeto inanimado para, em seguida, assumir aspecto de um ser vivo. Noutro momento de delírio atribuído a Kerensky, o narrador do filme pergunta (em legenda) se aquele Alexandre seria o novo czar, Alexandre IV. Quando Kerensky brinca com luxuosa peça de cristal, coroando-a, o desdobramento dessa imagem é uma tropa de soldados de brinquedo.

Os quadros de objetos, reiteradamente montados como recurso narrativo do filme, encontram um correspondente com aparência de não ser montado, no momento em que os revolucionários invadem o Palácio de Inverno: a profusão luxuosa de quinquilharias nos aposentos da Imperatriz e o excesso de garrafas na adega. Não está em jogo a pré-existência daqueles quadros: eles são fatos do filme, fatos constitutivos de uma memória reflexiva sobre seu tema; e exigem, do espectador, o ato interpretativo para que o trabalho de montagem não se confunda com um jogo formal. Evocando o recurso psicanalítico da livre associação, a narrativa convida quem a acompanha a tecer articulações entre tantos objetos e imagens, em busca de seus nexos para a compreensão daquela realidade.

O filme de Eisenstein e Alexandrov se encerra como nova epígrafe de Lênin, reiterando a criação do Estado socialista proletário. A narração principal que Outubro tece é sobre o mundo anterior a essa criação, quando o que estava em jogo não era somente o Estado, e sim a Sociedade tomando seu destino nas próprias mãos.

O filme é fiel aos fatos? Sim, no que se refere a seus próprios fatos.

Feito por encomenda, Outubro faz pensar sobre revoluções em potência – além daquela que o Estado procurava monopolizar -, que a linguagem artística teimava em evocar. Na medida em que a revolução se desmontava (desde o início dos anos 20! Proibição de facções no partido, depois da oposição de esquerda, visão depreciativa das artes experimentais, transformação do mundo socialista em gestão do Estado), tal homologia cinematográfica enfrentou mais e mais barreiras para sobreviver - a extrema violência stalinista, a política estética do “Realismo socialista” -, donde as crescentes dificuldades que Eisenstein sofreu, até o final da vida, para fazer novos filmes.

É doloroso pensar nos belos filmes que esse e outros cineastas não fizeram por mera insegurança do Estado. Mas ao menos cabe o consolo de que não estamos diante da Ideologia do regime.
Outubro não é Stalinismo, nem Realismo socialista, e sim um Triunfo da Poesia. A memória principal que dele resulta é a da capacidade interpretativa da Arte sobre o mundo do Socialismo que se tentava construir, e que se destruía em nome dele mesmo.

FICHA TÉCNICA

Outubro – Dez dias que abalaram o mundo (URSS). 1927. Direção: S. Eisenstein e G. Alexandrov. Produção: Sovkino. Roteiro: S. Eisenstein e G. Alexandrov, a partir do livro 10 dias que abalaram o mundo, de John Reed. Fotografia: E. Tisse e G. Popov. Cenografia: V. Kovriguine. Música: Edmund Meisel. Assistentes de direção: M. Strauch, M. Gomorov e I. Trauberg. Elenco: Nikandrov (Lênin), Vladimir Popov (Kerenski), B. Livanov (Terechtchenko), E. Tisse, soldados, camponeses e outros sujeitos populares. 74 minutos. Preto e branco.

LEITURA QUE RECOMENDO

EISENSTEIN, Serguei. Reflexões de um cineasta. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.
MACHADO, Arlindo. Serguei M. Eisenstein. São Paulo: Brasiliense, 1982   (Encanto Radical - 8).

REED, John. 10 dias que abalaram o mundo. São Paulo: Global, 1978.

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